E A TERRA SEGUE EM
TRANSE
Glauber Rocha
foi um dos maiores cineastas brasileiros. Bom baiano de Vitória da Conquista,
nos duros anos entre 1960 e 1980 produziu nove longas-metragens, além de oito
documentários e curtas. Com os primeiros, conseguiu nada menos do que três
indicações para a Palma de Ouro, prêmio concedido ao melhor filme no Festival
de Cannes, na França. Ganhou com o terceiro (O Dragão da Maldade Contra o Santo
Guerreiro), mas na categoria de melhor diretor, em 1968. O primeiro fora Deus e
o Diabo na Terra do Sol, em 1964; e o segundo Terra em Transe, em 1967.
Não é muito
simples acompanhar um filme de Glauber. Para quem gosta da ação e da
linearidade, sem aprofundamento de nada, como a produção média de Hollywood,
ele realmente não se enquadra. Mas quem aprecia cinema de fato, percebendo as
peculiaridades dessa linguagem artística, ele tem valor e merece
reconhecimento. Fazia cinema na acepção correta da palavra. Antes de fazer,
pensava e entendia que essa arte tinha necessidade de ser engajada, ou não
teria razão de existir. E sempre pregava a elaboração de uma estética nova e de
uma necessária revisão crítica da nossa realidade. O que faz com que ainda hoje
se encontre uma profunda semelhança entre o que mostrava na tela e a sociedade
brasileira.
Terra em
Transe basicamente é a história de um político, Porfírio Diaz, vivido
magistralmente por Paulo Autram, que sonha em ser o imperador de um país
fictício chamado Eldorado. O lugar é tropical e pobre, sendo a religião um dos
instrumentos dos quais ele faz uso na luta para chegar o poder. Em uma cena
marcante, filmada de propósito de baixo para cima, ao melhor estilo do chefe da
propaganda nazista Joseph Goebbels – Hitler ganhava uma dimensão que jamais
teve –, o candidato discursa agarrado a uma cruz e uma bandeira, dizendo que
deseja ser o salvador do povo, “em nome de Deus”. Ou seja, em termos de Brasil,
algo muito atual.
Filmado em
plena ditadura militar, não foi por acaso que o realizador passou a ser
considerado elemento subversivo e perigoso. O que não quer dizer muita coisa
porque, durante aquele regime, todo ser pensante que fugisse ao estabelecido
representava perigo. Mas controvertido, isso ele de fato era. A tal ponto que
chegou a ser patrulhado pela direita e pela esquerda brasileira, ao mesmo
tempo. Para os primeiros, ele mostrava o que precisava permanecer oculto; para
os demais, não assumia com clareza uma postura de denúncia. Esses últimos devem
ter ficado mais satisfeitos quando, algum tempo depois, exilado em Portugal,
numa série de entrevistas que concedeu à imprensa europeia, Glauber criticou
durante o governo militar e a repressão e tortura por ele promovidas.
Na década de
50 o cinema brasileiro basicamente se limitava a produzir chanchadas – que eram
musicais cômicos e baratos –, feitas muitas vezes com o apoio financeiro de
distribuidoras estrangeiras. Um alheamento programado. O movimento chamado
Cinema Novo, que teve além de Glauber Rocha também Cacá Diegues, Leon Hirszman
e Nelson Pereira dos Santos, entre outros, mudou esse cenário. “Com uma câmara
na mão e uma ideia na cabeça”, superavam a falta de recursos com liberdade
criativa. E com tom e cenários intensos, mostravam de modo mais cru a realidade
social que afetava a classe trabalhadora: a fome, sua exploração e abandono,
toda a espécie de violência, a alienação religiosa e a ilusão com a política.
Receita que pode ser vista com clareza no Terra em Transe citado como
referência, que se encontra no YouTube.
Em 2014, documentos
obtidos pela Comissão da Verdade comprovaram que Glauber estava numa lista de
pessoas que a ditadura ainda pretendia assassinar, na sua reta final. O que não
precisou ser feito porque ele faleceu antes, aos 42 anos, em agosto de 1981, vitimado
por septicemia decorrente de problema respiratório que enfrentou. Residia em
Sintra, uma cidade voltada ao veraneio dos portugueses. Segundo sua mãe, Lúcia
Rocha, o filho “não morreu da vontade de Deus; morreu de uma doença chamada
Brasil”. Pior é que nosso país continua doente e temos um talento a menos para
registrar essa patologia.
31.03.2020