sábado, 4 de abril de 2020


E A TERRA SEGUE EM TRANSE

Glauber Rocha foi um dos maiores cineastas brasileiros. Bom baiano de Vitória da Conquista, nos duros anos entre 1960 e 1980 produziu nove longas-metragens, além de oito documentários e curtas. Com os primeiros, conseguiu nada menos do que três indicações para a Palma de Ouro, prêmio concedido ao melhor filme no Festival de Cannes, na França. Ganhou com o terceiro (O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro), mas na categoria de melhor diretor, em 1968. O primeiro fora Deus e o Diabo na Terra do Sol, em 1964; e o segundo Terra em Transe, em 1967.
Não é muito simples acompanhar um filme de Glauber. Para quem gosta da ação e da linearidade, sem aprofundamento de nada, como a produção média de Hollywood, ele realmente não se enquadra. Mas quem aprecia cinema de fato, percebendo as peculiaridades dessa linguagem artística, ele tem valor e merece reconhecimento. Fazia cinema na acepção correta da palavra. Antes de fazer, pensava e entendia que essa arte tinha necessidade de ser engajada, ou não teria razão de existir. E sempre pregava a elaboração de uma estética nova e de uma necessária revisão crítica da nossa realidade. O que faz com que ainda hoje se encontre uma profunda semelhança entre o que mostrava na tela e a sociedade brasileira.
Terra em Transe basicamente é a história de um político, Porfírio Diaz, vivido magistralmente por Paulo Autram, que sonha em ser o imperador de um país fictício chamado Eldorado. O lugar é tropical e pobre, sendo a religião um dos instrumentos dos quais ele faz uso na luta para chegar o poder. Em uma cena marcante, filmada de propósito de baixo para cima, ao melhor estilo do chefe da propaganda nazista Joseph Goebbels – Hitler ganhava uma dimensão que jamais teve –, o candidato discursa agarrado a uma cruz e uma bandeira, dizendo que deseja ser o salvador do povo, “em nome de Deus”. Ou seja, em termos de Brasil, algo muito atual.
Filmado em plena ditadura militar, não foi por acaso que o realizador passou a ser considerado elemento subversivo e perigoso. O que não quer dizer muita coisa porque, durante aquele regime, todo ser pensante que fugisse ao estabelecido representava perigo. Mas controvertido, isso ele de fato era. A tal ponto que chegou a ser patrulhado pela direita e pela esquerda brasileira, ao mesmo tempo. Para os primeiros, ele mostrava o que precisava permanecer oculto; para os demais, não assumia com clareza uma postura de denúncia. Esses últimos devem ter ficado mais satisfeitos quando, algum tempo depois, exilado em Portugal, numa série de entrevistas que concedeu à imprensa europeia, Glauber criticou durante o governo militar e a repressão e tortura por ele promovidas.
Na década de 50 o cinema brasileiro basicamente se limitava a produzir chanchadas – que eram musicais cômicos e baratos –, feitas muitas vezes com o apoio financeiro de distribuidoras estrangeiras. Um alheamento programado. O movimento chamado Cinema Novo, que teve além de Glauber Rocha também Cacá Diegues, Leon Hirszman e Nelson Pereira dos Santos, entre outros, mudou esse cenário. “Com uma câmara na mão e uma ideia na cabeça”, superavam a falta de recursos com liberdade criativa. E com tom e cenários intensos, mostravam de modo mais cru a realidade social que afetava a classe trabalhadora: a fome, sua exploração e abandono, toda a espécie de violência, a alienação religiosa e a ilusão com a política. Receita que pode ser vista com clareza no Terra em Transe citado como referência, que se encontra no YouTube.
Em 2014, documentos obtidos pela Comissão da Verdade comprovaram que Glauber estava numa lista de pessoas que a ditadura ainda pretendia assassinar, na sua reta final. O que não precisou ser feito porque ele faleceu antes, aos 42 anos, em agosto de 1981, vitimado por septicemia decorrente de problema respiratório que enfrentou. Residia em Sintra, uma cidade voltada ao veraneio dos portugueses. Segundo sua mãe, Lúcia Rocha, o filho “não morreu da vontade de Deus; morreu de uma doença chamada Brasil”. Pior é que nosso país continua doente e temos um talento a menos para registrar essa patologia.

31.03.2020


BELCHIOR, UM GÊNIO

Nestes tempos de recolhimento coronavirulense, tem sobrado tempo para se ler e reler textos e livros, ouvir outras vezes músicas que marcaram nossa história e andavam esquecidas, e também para que alguns DVDs de filmes muito especiais saiam da prateleira para o aparelho. Eu coleciono isso tudo, desconfiado que sou da eficiência da tal da nuvem e da lista da Netflix, que muda conforme interesses que nem sempre coincidem com os meus. Foi com esse espírito que ouvi pela manhã o inigualável álbum de Belchior, Alucinação. Foi lançado em 1976 – era o segundo dele produzido em estúdio -, eu terminando o ensino médio no Julinho e no Parobé, duas escolas simultâneas, cabelos compridos, rebelde sem causa, cheio de hormônios e de ideias. Momento oportuno para se ter ídolos e, felizmente, nesse quesito fiz excelente escolha.
Belchior foi um gênio. Nunca teve o respeito devido da mídia, que preferia garotos bem comportados, os Ivan Lins da vida. Mas, ao contrário desse, que parecia tocar a mesma música em todas as faixas dos LPs que lançava, o compositor e cantor cearense – era natural de Sobral – transbordava em criatividade, fazendo cada música ser diferente da outra, sem deixar de dar uma estrutura coesa e muito coerente para o todo. Alucinação tinha dez canções diferentes. E todas eram um clamor autêntico do “retirante” nordestino, que trazia sua verdade e seu alerta, abrindo os olhos da juventude do centro-sul do Brasil, para nossa real identidade. Como Nossos Pais é uma obra prima, depois imortalizada na voz de Elis Regina. Mas Velha Roupa Colorida, assim como Fotografia 3x4 e também Sujeito de Sorte são quase perfeitas. Pouco ficam devendo para Apenas um Rapaz Latino-Americano e para Alucinação, que dá nome ao álbum.
A mais curta de todas as canções era Como o Diabo Gosta, que eu adorava cantarolar depois de ouvir várias e várias vezes o disco todo, para desespero da minha mãe. Para ela era um absurdo eu repetir “Não quero regra nem nada. Tudo está como o Diabo gosta, está. Já tenho este peso que me fere as costas. E não vou eu mesmo atar minha mão”. Mas doía muito mais na minha velhinha outro trecho da letra: “...a única forma que pode ser norma. É nenhuma regra ter. É nunca fazer nada que o mestre mandar. Sempre desobedecer, nunca reverenciar”. Isso era demais para alguém com a idade e a formação dela, que sacudia a cabeça, olhar desalentado. Tenho certeza que nessas ocasiões só não perdeu de vez a esperança em que eu viesse a ter algum futuro, devido ao amor infinito que habita o coração da maioria das mães.
As outras três músicas que completam esta obra são Não Leve Flores, À Palo Seco e Antes do Fim. E a soma de todas elas consegue resumir o que sentia grande parte da minha geração. Um misto de inquietude, da angústia que os tempos sombrios da ditadura depositava sobre nossos ombros, de urgência para se buscar o sonho de liberdade que ainda se tinha, de amargura junto com o regozijo de ainda estar presente o prazer de viver. Não se pode entender a juventude brasileira dos anos 1970 sem ouvir Belchior, com atenção. Não apenas esse álbum – até 1999 lançou 14 deles produzidos em estúdio –, mas ele em especial. Coração Selvagem, assim como Divina Comédia Humana se destacariam entre esses outros. Mas Alucinação é muito superior, fez sucesso instantâneo e vendou mais de 500 mil cópias, um fenômeno para a época.
O que pouca gente sabe é que Belchior cursou quatro anos de medicina, antes de abandonar seu estado natal para perseguir o sonho de ser cantor. Que começou sua trajetória como parceiro de Fagner. E que morreu em Santa Cruz do Sul em 2017, onde residia na casa de amigos, vivendo literalmente de favor. No anonimato que buscou nos últimos anos, sem dinheiro, sem desejo de voltar a fazer shows, recluso mas produzindo trabalhos que ainda estão inéditos. Escondido da imprensa, arredio e quase arrependido de ter estado tanto à frente do seu tempo. Talvez porque viu terem sido inúteis tantos alertas seus. Porque a juventude das décadas seguintes repetiu muitos dos erros das anteriores e ele não percebia o quanto isso é normal. Mesmo tendo cantado que “apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos, ainda somos os mesmos e vivemos, como nossos pais”. E olha que ele repetiu duas vezes este verso chave.

29.03.2020



SOBRE A SAUDADE

O compositor carioca Renato Russo estaria completando, nesse mês de março, 60 anos. Foi embora muito antes disso, com 36, em 1996. No ano de sua despedida nasceu meu filho Bolívar, que conseguiu ser ainda mais breve do que ele e nos deixou no começo de 2000. Logo depois dessa perda - que até hoje me marca como ferro em brasa - estive numa loja de discos, em Lajeado, onde morava, para comprar um dos CDs nos quais Renato e sua Legião Urbana nos brindava com um talento musical único. Buscava cópia do seu quinto álbum, aquele de uma capa branca e simples, com letras douradas, em razão da faixa sete. Vento no Litoral era e é a materialização de uma saudade que não tem tamanho. A letra é certeira e traduz essa dor como seria quase impossível fazer melhor. “Aonde está você agora, além de aqui, dentro de mim?”, pergunta um Renato sensível e preciso. E a melodia é lenta, se arrasta e se repete como ondas que batem suaves nas areias de uma praia deserta. Quando ouço, até hoje, parece que sinto o cheiro do mar, a brisa no rosto e estou envolto pela luz de um final de tarde, que vai se entregando lentamente aos braços da noite. É uma solidão não desejada mas necessária, de eterna lembrança e reconstrução.
Renato era Manfredini, de nascimento. Adotou Russo, pelo que consta, em homenagem a três pensadores e artistas que admirava: o pintor francês Henri Rousseau, o filósofo inglês Bertrand Russel e o iluminista suíço Jean-Jacques Rousseau. Era uma pessoa culta, morou em Nova Iorque por dois anos, trabalhou como jornalista, compunha e tocava violão e baixo. Já surfara na carreira solo e com outra banda, antes de fundar a Legião, da qual era líder. Ele e muitos músicos surgidos e formados nos duros tempos da ditadura militar, preocupados com o país e seu futuro, escreveram letras plenas de protesto e de denúncias. Mas Renato, sem fugir do quase compromisso político da época, permaneceu com traços de uma doçura mesmo que ácida e um texto fruto de muita introspecção. Desde menino ele fora um tanto tímido e teve tendências depressivas, o que explodiu em fúria e vício apenas na reta final da vida, diante da percepção do fim inevitável, pela doença sem cura.
Ele sabia bem o que era saudade. E deve ter sentido inclusive daquilo que não teve tempo de viver. Saudade de tudo que ficou apenas como projetos e esperança. Ele sabia que a vida aproxima e separa, que esse movimento pendular de constante ida e volta é o que caracteriza a própria existência. Entendia que nem toda distância é afastamento, tanto que em outro dos versos de Vento no Litoral ele admite: “Vai ser difícil sem você, porque você está comigo o tempo todo”. A pessoa em questão com certeza não estava mais perto, mas paradoxalmente habitava nele viva, numa memória intensa e dolorosa.
Não se pode esquecer que outros compositores souberam definir com a mesma clareza essa palavra. Um deles, provavelmente o maior entre todos os brasileiros, Chico Buarque de Holanda, associa o sentimento com uma dor física. Segundo ele, em Pedaço de Mim, “...a saudade é o pior tormento. É pior do que o esquecimento. É pior do que se entrevar”. O ficar entrevado é a imobilidade trazida pela dor, o torpor que anula o tempo vivido, que faz o olhar ficar perdido quando se olha para o mar sem nada ver. “Oh, metade amputada de mim. Leva o que há de ti. Que a saudade dói latejada. É assim como uma fisgada. No membro que já perdi”, acrescenta ele. No caso desta minha saudade específica – claro que como todas as pessoas, muitas outras tive e tenho na vida – Chico é a ainda mais certeiro em outros versos na mesma obra prima: “...a saudade é o revés de um parto. A saudade é arrumar o quarto. Do filho que já morreu”.
Renato Russo me toca mais fundo pela sonoridade da canção. Pelo momento em que eu a conheci. E também pela pitada de esperança que ele coloca na receita. “...E quando vejo o mar. Existe algo que diz. Que a vida continua e se entregar é uma bobagem. Já que você não está aqui. O que posso fazer é cuidar de mim. Quero ser feliz ao menos.”. Juro que tenho tentado. E prometo continuar fazendo isso. O que nunca me impediu de lembrar, por exemplo, da expressão do casal de vendedores daquela loja onde comprei o CD. Quando eu coloquei para ouvir, para ter certeza de que estava comprando o que realmente queria, os fones não tiveram como esconder a lágrima que escorreu furtiva. E também não me impediram de ver o olhar e o sorriso que eles trocaram. Coitados: não havia como entenderem o que eu sentia. Nem saber que, ao final, “...o vento vai levando tudo embora”, como termina a canção.

27.03.2020